Dor não é uma coisa só
Dor não é uma coisa só
Existem várias definições para a palavra Dor. Podemos dizer que dor é uma sensação desagradável relacionada a uma lesão real ou que vem da expectativa da dor. Essa sensação pode vir de uma agressão real ou psicológica ao corpo. Todos sentem dor. Os bebês têm mais dores abdominais, as crianças tem mais dores por causa dos tombos, dos joelhos ralados e entorses, as mulheres jovens tem cólicas menstruais que fazem doer e os idosos dores articulares, nas juntas. A dor é um processo de defesa do ser humano, um sinal para avisar que algo não anda bem com o corpo. De analgésicos as farmácias estão repletas. Mas existe um tipo de dor que não cabe na explicação acima. Que torna a definição de dor no mínimo simplista. A dor na alma, dor no coração, dor emocional. Quem nunca passou por isso? Fica difícil dizer o que é pior, se é uma dor de cabeça ou aquela que não está em nenhum espaço físico, mas leva a mão de qualquer pessoa ao peito, como se lá ela estivesse instalada. E então não há Dipironaâ que resolva. Uma pessoa que foi abandonada por outra sofre menos do que aquela que acabou de sair de uma cirurgia e percebe que o efeito da anestesia está acabando?
Um dos maiores medos do ser humano é de sentir dor. Uns porque são pouco tolerantes à ela, outros porque a dor física se remedia com analgésico ou morfina nos casos extremos, mas a dor emocional não acaba assim. Dormir pra esquecer, beber pra esquecer, tudo isso é truque. A sensação depois do sono e a consciência depois do porre são piores.
Dor é tristeza, sofrimento, vem da saudade, do abandono, da recusa, da frustração. Se não há remédio, chorar acalma. Os bebês têm dores abdominais, mas o que sentem quando querem mamar e a mãe não está por perto? As crianças são as mais passíveis de levar tombos e passarem a infância toda com as pernas roxas e raladas, mas qual o tamanho do sofrimento quando os outros amiguinhos da escola, do condomínio a rejeitam ou inventam apelidos para desqualifica-la? E o adolescente quando começa a passar pelas agruras dos amores impossíveis, dos namoros que parecem nunca dar certo? A dor da mãe que perde um filho. A dor do idoso que se sente desrespeitado, sozinho, incompreendido em meio à suas limitações. Ou a mais simples delas: aquela que parece vir do nada, ou causada por fatos que parecem tão insignificantes.
Insignificância. Quantas vezes não ouvimos alguém dizer: “Fulano está chorando por besteira.”? Acredito que nenhuma dor seja besteira, que nenhum sentimento seja desimportante. Talvez a sociedade em que viemos nos roube a sensibilidade além do que deveria, e de repente o sentimento alheio se torna desprezível, descartável. A tristeza não está estampada nos anúncios de cigarros, tratamentos estéticos e roupas da moda.
As pessoas inventam estratégias para evitar a dor e outras para evitar a dor dos outros. É como se houvesse avisos do tipo: Não chore, seu chefe pode achar que você é desequilibrado emocionalmente. Não chore, porque homem não chora. E os consultórios de psicólogos, terapeutas e outros do gênero continuam lotados. E a tristeza, essa bruxa, está solta pelas telenovelas. E 9 em cada 10 sucessos das rádios são músicas que representam a típica “dor-de-cotovelo”.
Não há palavra mágica que conserte um coração quebrado. Mas como não poderia deixar de ser, termino esse artigo com palavras de Luis Fernando Veríssimo, que não levam a dor pra longe, mas são um bom começo para tentar compreende-la. Até a próxima!
“Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas". Conclusão: a própria dor tem a sua medida. É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.”
Ligia Gielamo Oliveira
é estudante do 2º ano de jornalismo da PUC Campinas.
Email: ligia@feministcampus.org
P.S: A coluna dessa semana é dedicada (saudade) para Celso Suzuki, o “Lindinho”.
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